...OU COMO TENTAR INVERTER AS COISAS
Mais uma semana muito cheia.
Entre outras atividades participei da reunião do CENG na quarta.
O CENG é a comissão que foi criada para acompanhar o processo de instalação da Terceira Usina de Pelotização da Samarco e, mais especialmente, para fiscalizar o cumprimento das suas condicionantes.
O investimento é de um bilhão e 60 milhões de reais.
O pico das obras de instalação vai empregar 3.800 trabalhadores.
Nessa comissão eu represento Anchieta para o Meio Ambiente.
É uma situação pouco confortável para mim, sobretudo depois que me elegeram suplente da presidência. Explico.
Uma tal comissão é de grande “eficácia simbólica” para o fortalecimento da nova imagem na qual a Samarco está investindo. A de “empresa cidadã”, “transparente”, “participativa”, etc.
A Samarco não é a única que faz isso atualmente, todas as grandes empresas fazem.
Eu acho que isso é um dos “filhotes” da globalização. A guerra cada vez mais feroz pela conquista de mercados deu origem a um pseudo “código de ética”. A partir daí foram assinados tratados e outros documentos para nos convencer que um mundo civilizado não comporta mais colonizadores e colonizados. As grandes empresas se apropriaram até do vocabulário daqueles que, justamente, estavam do “outro lado”. Daqueles que lutam pelos direitos humanos e por justiça social. Mas nós sabemos que, quando um país, em nome dos direitos humanos, acusa o outro de estar usando mão-de-obra infantil na produção de sapatos, por exemplo, a sua última preocupação é a exploração dessas crianças.
Mas se ainda corre sangue nos bastidores da disputa por mercados, os holofotes da mídia subsidiada mostram cenários de empresas cada vez “mais verdes”, “mais humanas” e com “mais responsabilidade social”. Elas estão “preocupadas com a educação, com a saúde, com o bem estar social” e fazendo de tudo para “criar espaços de cidadania” e “fortalecer a sociedade civil”.
Essa comissão é um desses “espaços de cidadania”.
Quem está de fora pode imaginar que nós estamos realmente por dentro. E até com algum poder.
Exemplo disso é que tenho sido cobrada por coisas que não são nem abordadas nessas reuniões pois o seu âmbito é bastante restritivo. Além do mais, essas reuniões têm o “suporte técnico” e o acompanhamento de representantes do IEMA (Instituto Estadual do M.A) e funcionários especializados da Samarco. O vocabulário é altamente técnico e são abordadas questões que dizem respeito, por ex., ao meio biótico, terrestre e aquático. Para a maioria dos participantes isso é grego.
E não poderia ser de outra forma.
Vejamos: a comissão é composta por representantes da sociedade civil organizada de Anchieta e de Guarapari, as duas cidades impactadas pelo empreendimento.
Esses representantes são, geralmente, os presidentes de associações de moradores que, o mais freqüentemente, não dão conta nem de defender ou representar devidamente os interesses básicos dos moradores. E aqui não existe nenhuma crítica. Algumas dessas pessoas fazem realmente o que podem.
Tem também o grupo de associações que foram criadas com a ajuda e orientação da própria Samarco e as que foram criadas atendendo a interesses políticos. Mas, certamente, o grande problema é a compreensão da matéria. Como você pode questionar uma coisa que não entende? E ninguém quer fazer papel de bobo, não é?
Pois eu faço esse papel. Pergunto tudo que não compreendo e tento incentivar os outros a fazer o mesmo. Só fico satisfeita quando muitas pessoas começam a se manifestar, a participar realmente da reunião.
Dependendo de mim não seremos protagonistas de uma encenação que só favoreça à imagem da Samarco.
Eu vi esse perigo desde a primeira reunião e fui tentada a abandonar o tal CENG.
Mas descobri que há uma possibilidade real de inverter as coisas e nenhum lugar seria melhor do que ali.
Por isso, já na nossa primeira reunião após a eleição da diretoria, sugeri duas coisas:
- Que fosse criada uma cartilha para que os participantes pudessem ter um mínimo de capacitação para compreender as pautas apresentadas.
- Que fosse criado um espaço dentro do CENG ou então, que fosse criada uma outra comissão, para que fossem abordados todos os outros assuntos que não dizem respeito só à Terceira Usina. E, creiam-me, são justamente os assuntos que mais me interessam pois tem coisa que vem se arrastando desde a implantação da primeira usina... há 30 anos.
Espero que esse assunto não seja muito tedioso para vocês. Gostariam de saber mais? Acham a coisa interessante? Por favor, escrevam.
Comentários
Mo, 28.08.2006 15:46
Roberto Luquini, obrigada pela s suas palavras. Só hoje posso responder-lhe pois estive, ma is uma vez, com problema [...]
Fr, 11.08.2006 19:49
É, Ilda, pelo visto a luta con tinua, né? Se houvesse mais ge nte como você nesse nosso Bras il, o país seria outro. [...]
Sa, 15.04.2006 05:06
Je sais que tu es très critiqu e sur les actions écologiques des sociétés, mais je ne parta ge pas tout à fait ton a [...]
Mi, 15.03.2006 19:43
Oi mae, qual e o endereco web do PROGAIA?
Mo, 27.02.2006 20:49
Vielleicht gibt es ja doch noc h ein Hoffnung für die Menschh eit??