A Assembléia Legislativa do ES realizou em 19.11, uma primeira audiência pública sobre o pólo industrial de Anchieta, focado mais especificamente na siderúrgica chinesa Baosteel. Apesar de não ter podido comparecer, relatórios de membros do Fórum de Entidades Organizadas do litoral Sul do ES me permitiram ter uma boa idéia do desenrolar da sessão.
Como já era esperado essa audiência serviu unicamente aos objetivos do governo e das indústrias embora deva integrar o que frequentemente o governo menciona como “diálogo com a sociedade”.
A verdade é que, acuados numa posição de ouvintes e sempre limitados pelo relógio, os representantes da sociedade civil mal tem tempo de se expressar.
Talvez o único ponto positivo tenha sido o de mostrar mais claramente quem é quem nesse processo e mostrar as alianças que já estão formadas e as que ainda estão em formação.
É sempre triste constatar como dinheiro e poder fazem rapidamente amigos e aliados e a incrível vulnerabilidade dos seres humanos aos acenos de regalias pessoais.
Essas ocasiões expõem a grande desigualdade entre aqueles que defendem com unhas e dentes o pólo industrial/Baosteel e aqueles cujos princípios éticos não deixam outra opção a não ser continuar nessa luta desleal e injusta para a defesa dos direitos humanos, dos limites ecológicos da região, do bom uso do dinheiro público, das leis que deveriam garantir a igualdade de direitos dos cidadãos, da liberdade de expressão, do direito ao acesso às informações que dizem respeito ao seu futuro e, em resumo e dentro do contexto imediato, o direito de exigir um planejamento para o que será uma mudança radical e sem retorno de todo o litoral sul do Espírito Santo.
Desde que o mundo é mundo sempre prevaleceu a vontade e os interesses dos grupos dominantes em detrimento dos interesses da coletividade e nesse sentido não há nada de inovador no Espírito Santo a não ser uma adequação de fachada às exigências éticas e legais atualmente em vigor no mundo dito civilizado.
A audiência pública na Assembléia mostrou que hoje não basta apenas dominar mas é importante convencer os dominados de que isso é o melhor para eles. Nada melhor do que uma estrutura legal para a montagem cênica da peça.
O público fica à mercê do impacto visual e pomposo das autoridades e dos artifícios verbais daqueles que vivem disso e o que se segue é um confinamento psicológico que inibe a maioria de se manifestar.
Alguns se mantêm estrategicamente em cima do muro, e, calados ou inócuos nas suas falas aguardam a ocasião de serem chamados ao balcão de negociações.
Assim, nada mais normal que apenas dois representantes da sociedade civil se manifestassem claramente contra a poderosa farsa instalada.
Esse é o nosso Brasil, detentor da 80ª posição no ranking dos países que têm a menor percepção da corrupção, segundo a ong Transparência Internacional.
Nota: O índice de Percepção da Corrupção é calculado com base em diferentes pesquisas do setor privado e junto a consultores e conta com 180 países. O índice 10 é considerado como ausência de percepção da corrupção e o índice zero como percepção total da corrupção. Como exemplo, Dinamarca e Nova Zelândia lideram o ranking de países com menor percepção de corrupção enquanto Haiti, Mianmar, Iraque e Somália ocupam as últimas posições. Na América do Sul o Brasil ficou à frente da Argentina, Bolívia, Paraguai, Equador e Venezuela. A transparência Internacional detectou uma “ligação fatal entre pobreza, instituições falidas e corrupção”. De acordo com a entidade, a presença de países como a Somália, Iraque e Haiti na parte de baixo do ranking mostra que o aumento da corrupção provoca um “continuo desastre humanitário”.
De acordo com esses parâmetros e tendo em vista como o processo está sendo conduzido, é fácil prever o desastre humanitário e ecológico que enfrentaremos com a instalação do pólo industrial de Anchieta e a vinda da siderúrgica chinesa, mesmo que o cenário democrático apresentado na ALES e os relatórios otimistas das autoridades que estiveram na China em visita à Baosteel tentem provar o contrário.
Nada está sendo feito para criar as infra-estruturas que seriam necessárias para acolher tal empreendimento e as estruturas de que dispomos não correspondem nem ao menos às necessidades atuais da região. Onde está o planejamento para assegurar, mesmo precariamente, os itens básicos de um desenvolvimento “relativamente” sustentável? Até agora só existe planejamento para a instalação das indústrias.
E como ficará o saneamento básico, saúde, segurança, transporte, moradia, malha viária, contenção dos impactos ambientais, zoneamento, educação, capacitação da população para a ocupação de melhores postos de trabalho, e todo o resto?
O que temos são declarações como a que foi feita pelo prefeito de Anchieta pelo rádio na sexta-feira pela manhã, dentro da mesma linha do que foi dito pelas autoridades na audiência da ALES.
Vejamos:
O Sr. Edval Petri declarou na rádio local que a reunião da Assembléia havia primado pela democracia e todos os presentes puderam se manifestar.
Afirmou que todos os pronunciamentos dos que estiveram na China foram favoráveis à vinda da Baosteel, mesmo o do representante da sociedade civil.
Nota: os dois representantes, um de Anchieta e outro de Guarapari que estiveram na China representaram apenas suas próprias comunidades e não, como o prefeito insinuou, toda a sociedade civil da região.
Mas continuando, o prefeito afirmou que os integrantes da comitiva que esteve na China ficaram encantados com o que viram!!!! A Baosteel é uma empresa modelo para o mundo inteiro e os chineses têm uma imensa preocupação ambiental (deve ser por isso que são os maiores poluidores do planeta). Assegurou que os ambientalistas podem estar sossegados que ele está cuidando para que o Conselho de MA saia o mais rapidamente possível (tem quatro anos que ele diz isso).
Mas o mais importante: O PREFEITO AFIRMOU QUE AS INFRA-ESTRUTURAS SERÃO CRIADAS JUNTAMENTE COM A INSTALAÇÃO DO PÓLO INDUSTRIAL !!!!!!
DÁ PARA IMAGINAR ISSO? DE REPENTE, MILHARES DE PESSOAS, VINTE OU 30 MIL, AFLUEM DE TODOS AS REGIÕES DO PAÍS EM BUSCA DO ELDORADO ANCHIETENSE JUNTAMENTE COM MILHARES DE VEÍCULOS (CARRETAS, CAMINHÕES, ÔNIBUS).
AO MESMO TEMPO, DÁ-SE INÍCIO À CONSTRUÇÃO DE RUAS, ESTRADAS, CASAS E PRÉDIOS RESIDENCIAIS E COMERCIAIS, INSTALAÇÃO DE ESGOTO, DE NOVA REDE DE CAPTAÇÃO (ONDE?), TRATAMENTO E DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA, INSTALAÇÃO DE NOVAS REDES DE ELETRICIDADE (A ATUAL É SUCATA), TELEFONIA, POSTOS DE SAÚDE, ESCOLAS, PRAÇAS, RODOVIÁRIAS, PORTOS, USINAS, CENTROS COMERCIAIS, CENTENAS DE EMPRESAS E INDÚSTRIAS DE SUPORTE ETC, ETC, ETC.....
Fico por aqui. Cada um tem seu limite e o meu, por hoje, foi alcançado.
Comentários
Mo, 28.08.2006 15:46
Roberto Luquini, obrigada pela s suas palavras. Só hoje posso responder-lhe pois estive, ma is uma vez, com problema [...]
Fr, 11.08.2006 19:49
É, Ilda, pelo visto a luta con tinua, né? Se houvesse mais ge nte como você nesse nosso Bras il, o país seria outro. [...]
Sa, 15.04.2006 05:06
Je sais que tu es très critiqu e sur les actions écologiques des sociétés, mais je ne parta ge pas tout à fait ton a [...]
Mi, 15.03.2006 19:43
Oi mae, qual e o endereco web do PROGAIA?
Mo, 27.02.2006 20:49
Vielleicht gibt es ja doch noc h ein Hoffnung für die Menschh eit??