Depois de morar 32 anos na Europa (Alemanha e Bélgica), Ilda de Freitas decidiu voltar ao Brasil. O destino escolhido foi Anchieta, sul do Espírito Santo, mais precisamente Guanabara. Lá construiu uma pousada (Bromélias). À procura de paz e tranqüilidade, a intenção era fazer daquele pedacinho de terra seu aconchego. Ela não imaginava nem de longe, porém, que aquele pacato e bucólico lugarejo poderia lhe reservar tantos desafios àquela altura da vida. Embora na Europa, além de dois filhos, ela tenha deixado para trás uma vida um tanto agitada. Foi militante do Greepeace, trabalhou na União Européia e atuou em outras ONGs (Organizações Não-Governamentais). Lá também completou seus estudos em Lingüística. Entretanto, sua personalidade questionadora e inquieta não combinaria com uma Ilda versão ligth fazendo crochê e admirando as bromélias no jardim da pousada.
O período de paz e sossego durou pouco. Foi durante um evento na Samarco – que ironicamente comemorava o Dia da Árvore – que Ilda soltou o verbo pela primeira vez em público para criticar o discurso dos representantes da transnacional e autoridades de governo que queriam, segundo ela, dourar a pílula. “Disse que aquele discurso que eles defendiam não condizia com a verdade, porque a verdade é evidente: é só passar a mão nos móveis todos os dias para ver o pó de minério. Disse também que achava um absurdo apresentar a Samarco como a salvadora da pátria”. Para surpresa de Ilda, os estudantes das escolas públicas que assistiam à palestra aplaudiram a mineira de BH com entusiasmo. Um dos estudantes, Bruno Fernandes da Silva, se aproximou de Ilda. Meses depois ele estava dirigindo a ONG Gama – parceira da ONG de Ilda, a Progaia (Programa de Ação e Interação Ambiental).
A partir daí Ilda não parou mais. Aos 66 anos, ela dirige a Progaia, coordena o Ceng (Conselho de Entidades Não-Governamentais), é membro do conselho de turismo e de saúde e nas “horas vagas” administra a pousada. Sem contar o blog que mantém na internet – atualizado, diga-se de passagem. Vale a pena conferir (http://bromelias.weblogwriter.com/).
Leia a seguir a entrevista completa de Ilda de Freitas e entenda todo o processo de militância iniciado em Anchieta, os enfrentamentos que a Progaia vem travando com a poderosa transnacional Samarco. As vitórias conquistadas a duras penas e os novos desafios que ela terá pela frente com a instalação da megasiderúrgica Vale-Baosteel.
- Quando a senhora chegou aqui em Anchieta (Guanabara), há cerca de oito anos, a militância ambiental já era um objetivo? Ilda de Freitas: - Eu não pensei nisso no início. Porque meu objetivo nem era esse exatamente. Eu queria o sol de volta. A Bélgica é um país muito frio, chove muito e tudo é muito cinza. Eu queria qualidade de vida. Eu achava que já havia fechado um ciclo de minha vida na Europa e queria abrir um novo ciclo nesse retorno ao Brasil.
- Por que a senhora escolheu Anchieta?
- Eu escolhi Anchieta porque eu precisava de paz e tranqüilidade. Eu percebi que BH não poderia me oferecer essas coisas. Era também a possibilidade de unir o útil ao agradável. Meus filhos vêm todos os anos para cá e gostam de passar um longo período à beira mar. A idéia da pousada foi uma solução encontrada para fazer algum dinheiro e também ter um espaço para receber minha família. Mas não foi para ganhar dinheiro. Se fosse para ganhar dinheiro eu continuava na Europa.
- E como a senhora começou a se envolver nas questões sociais? - Comecei e me interessar pela cidade, sua história, suas dinâmicas. Para mim é muito importante esse envolvimento com o local que eu escolhi para morar. Na Europa sempre foi assim, eu me coloco na função de cidadã, o resto são acessórios. Todo mundo tem que fazer a sua parte para não ser somente um predador. Não tenho sonhos. Vivo um dia de cada vez.
- Qual foi a primeira causa em que a senhora se envolveu em Anchieta?
- Quando cheguei me deparei com o problema do lixo. Não havia coleta da prefeitura e as pessoas tinham como hábito queimar o lixo, muitas vezes sem tomar alguns cuidados para que o fogo não se alastrasse. Por causa disso já arrumei algumas brigas logo de cara. Você vai atrás do poder público e é ignorado e a comunidade também passa a te tratar com ignorância. Isso tudo gera um desgaste muito grande. Depois passei a entender melhor a lógica das coisas na medida em que fui me confrontando com os problemas sociais. Nesse momento é preciso parar e reavaliar os seus valores. Quando chequei aqui passei por esse processo de reavaliação. Eu tinha a referência da Europa ainda muito forte e achava que as coisas tinham fim, conclusão. Aqui aprendi que as coisas não são bem assim.
- A partir daí a senhora começou a se envolver em outras causas?
- Eu devia ter registrado tudo num diário pra entender melhor o que aconteceu comigo. Como me meti em tanta coisa assim. Às vezes fico cansada. É difícil quando você trabalha, trabalha e não vê muito retorno. Porque o meu retorno não é material, a exemplo da lógica dos políticos, das multinacionais. Meu retorno é ver na prática que há cada vez mais gente se envolvendo nessas causas sociais. Isso está acontecendo, mas o processo ainda é muito lento.
- A fundação da Progaia foi uma maneira de criar um canal institucionalizado de luta?
- No meu segundo ano em Anchieta (2001), eu tinha dois amigos que compactuavam das mesmas idéias, ou seja, garantir a preservação de Anchieta. Decidimos então montar a ONG (Progaia) pra proteger essa área. No início, a idéia era transformar uma área aqui de Guanabara em parque ecológico. Infelizmente, esse que foi o projeto inicial da ONG nunca avançou. Não havia interesse nem apoio por parte da população. Muito pior, as pessoas nos olharam como se estivéssemos cometendo uma ingerência.
- Vocês já tinham dimensão dos danos causados pela Samarco à região?
- Nós nem tínhamos contato com Samarco naquela época. Isso aconteceu depois. Mas esses foram os primeiros passos e dificuldades que começamos a enfrentar. A gente percebeu que o fato de ter um CNPJ, uma personalidade jurídica com a criação da ONG poderia facilitar nosso trabalho, como por exemplo no momento de participar de audiências públicas, reuniões e outros fóruns de discussão. Foi aí que começou a fase de conflito com a Samarco, que foi muito intensa.
- Qual foi o primeiro embate com a Samarco?
- O primeiro embate aconteceu numa reunião na própria Samarco, durante um evento de comemoração do Dia da Árvore. Porque aqui tudo é patrocinado pela Samarco. A maior parte da platéia era de estudantes de escolas públicas e autoridades. Havia umas palestras até interessantes. No final, eles abriram para perguntas. Foi quando percebi, e isso tem uns sete anos, que o discurso era todo conduzido para dourar a pílula do poder publico e da Samarco. Foi a primeira vez que eu me manifestei publicamente contra a Samarco.
- A Progaia já existia?
- Nós estávamos montando. Mas retomando. Essa manifestação aconteceu de forma muito espontânea. Eu me considero uma pessoa autêntica e estava num momento de questionamento. Eu queria entender os processos. Eu entendo que um cidadão não deve ser limitado por fronteiras territoriais, inclusive acho que a primeira coisa que devia mudar no mundo era isso, porque fazemos parte de um planeta, não de um circuito fechado. Acho que o fato de as pessoas não compreenderem isso é que gera tantos problemas.
- A senhora quer dizer com isso que as pessoas achavam que a senhora não tinha legitimidade para fazer certos questionamentos porque havia acabado de chegar?
- Para eles era assim, mas para mim não. Existe um contraste imenso entre a minha forma de pensar, a minha abertura cosmopolita e a maneira centralizadora, regional e bairrista com que as pessoas tratam certas questões. E isso acontece não só no Brasil, mas no mundo todo. Há muitas pessoas que não se preocupam com sua cidade, com seu bairro, mas somente com a rua em que moram. Eles só querem melhorias para a rua deles, para o clube, para a escola onde o filho estuda. A dificuldade do ser humano é entender que para se ter melhoria em algo é preciso ter uma visão macro. Não quero ser presunçosa, mas acho que nasci com isso. As pessoas dizem que é porque morei na Europa, mas não tem nada a ver. Acho que sempre tive essa visão, mas anteriormente não conseguia defini-la. Era mais um sentimento do que uma visão.
- E como as pessoas passaram a te ver depois desse primeiro embate com a Samarco?
- Como disse, no final do evento abriram para as perguntas, mas ninguém se manifestava. Percebi que havia muita ingenuidade nas pessoas, uma falta de conhecimento, de visão. Como se nós todos fôssemos pessoas de sorte pelo fato de a Samarco estar ali na região. A Samarco era venerada como uma empresa boa, que se preocupava com todos, um exemplo para o mundo, para o Brasil. Era uma empresa moderna e voltada para as questões sociais. O que eu achei interessante é que quando eu me manifestei, eu falei que estava abismada com aquilo, que estava há pouco tempo em Anchieta e precisei pintar minha pousada no segundo ano por causa do pó de minério. Disse que aquele discurso que eles defendiam não condizia com a verdade, porque a verdade é evidente: é só passar a mão nos móveis todos os dias. Disse também que achava um absurdo apresentar a Samarco como a salvadora da pátria. Nesse momento, o grupo de estudantes que estava lá me aplaudiu. Neste grupo de estudantes, embora fossem todos muito jovens, havia alguns que realmente demonstraram que queriam mudar as coisas. Um desses jovens que conheci nesse encontro foi o Bruno (Fernandes da Silva), que hoje é diretor-presidente da outra ONG ambiental de Anchieta (Gama), que é nossa parceira. - O trabalho da Progaia e da Gama tem sido complementar nesse processo de militância ambiental em Anchieta?
- A entrada dos jovens nesse processo com a Gama está sendo muito proveitosa para todos nós. Na verdade, nesse primeiro momento, tanto eu como o Bruno estávamos num processo de aprendizagem. Nós éramos inocentes em nossas abordagens. Eu vinha de um país onde a lei não era só válida no papel. No princípio, não conseguíamos ver a profundidade do problema. Então, de uma forma ou de outra, tanto a minha abordagem quanto a do Bruno foi cheia de ingenuidade, de inocência, de idealismo puro. Afinal, era uma multinacional poderosa contra alguns idealistas. Esse processo está acontecendo ainda. Acho que ainda me considero ingênua. Estou descobrindo até que ponto o egoísmo, a falta de responsabilidade de grupos pode chegar. Eu costumo dizer que nós estamos aprendendo o alfabeto da cidadania. O que importa é você não se conformar com seus limites.
- A senhora está percebendo que está havendo uma mudança de atitude por parte da sociedade. As pessoas estão mais sensibilizadas aos movimentos sociais?
- Participei de todas as audiências públicas e pude perceber que a participação da sociedade ainda é pequena. A comunidade aparece, num primeiro momento nas reuniões, com interesse de emprego. A mentalidade sempre foi esta. Depois, à medida que eles vêem que não é esse o assunto, esperam o lanche e vão embora. Eu sei que o negócio é complicado. Para mim também foi. Eu não sabia, por exemplo, o que era meio antrópico. Essas questões técnicas me deixavam perdida muitas vezes. E olha que eu tenho algum vocabulário, imagina para as pessoas mais simples da comunidade. Esse discurso teria que ser menos técnico e mais inclusivo, no sentido de fazer com que o povo compreenda as questões que estão sendo debatidas. Eu mesma fui perceber que as condicionantes que são protocoladas nas audiências públicas, a partir das informações e discussões, passam a valer depois de dez dias. Nessa última audiência da saúde, por exemplo, li o estudo de impacto ambiental e percebi que havia pontos que não condiziam com a verdade, que não estavam de acordo com o estudo de impacto ambiental. Telefonei para dezenas de pessoas pedindo que fossem nas próximas audiências. Um exemplo: dizia-se na audiência que a quantidade de leitos do hospital de Anchieta era muito grande e atendia muito bem ao número de habitantes, inclusive afirmavam que estava acima da média nacional. Isso não condiz com a realidade. E não havia ninguém da área de saúde para questionar. Os médicos e profissionais de saúde simplesmente não apareceram. <!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--> - Como os políticos têm se comportado nessas audiências?
- Os vereadores sempre me trataram como inimiga mesmo sem me conhecer direito. Já me enxergam como ameaça, uma inimiga em potencial que é capaz de apontar com o dedo as coisas erradas. Eles no máximo aparecem nas audiências só para assinar o livro de presença e vão embora. Isso quando aparecem. Não há um vereador que possa afirmar que participou plenamente do PDM (Plano Diretor Municipal).
- Por falar em PDM, o prefeito Edval Petrin (PSDB) escolheu os membros do conselho. Isso não tira a legitimidade do conselho? - Os conselhos são fundamentais para a democracia. É o meio de acesso às políticas públicas e à transparência daquilo que está sendo feito. O Conselho de PDM foi criado por decreto, eu recebi o convite para assistir à posse. Pela lei, todas as entidades deveriam ser convidadas para escolher seus representantes. As pessoas que o prefeito nomeou não têm atuação ou representatividade social. São verdadeiras vaquinhas de presépio. As multinacionais têm na sua mão a grande marionete que é o Paulo Hartung, depois têm os pequenininhos. Um Conselho deste nunca vai funcionar em prol da comunidade. Eles nunca vão querer alguém como eu, como o Bruno lá dentro, uma pessoa que tenha independência, compromisso.
- Então os Conselhos não funcionam?
- Dos conselhos estabelecidos, o que tem mais chance de funcionar é o da saúde, porque recebe repasse de dinheiro e isso torna obrigatória a prestação de contas ao Tribunal de Contas. Como as regras são mais rígidas, as coisas funcionam melhor. Mesmo assim tive que entrar com uma ação no Ministério Público para pedir a impugnação da primeira eleição que havia ocorrido de maneira irregular. Eles acabaram anulando essa eleição e fazendo outra. Na segunda, eu consegui me eleger. Eles alegavam que meio ambiente não tinha nada a ver com a saúde.
- A senhora poderia citar algumas realizações já conquistadas pelo Progaia?
- Foi por iniciativa do Progaia que o Ministério Público fechou o grande lixão de Iriri (limite com Piúma) que recebia lixo de cinco municípios aqui da região. Eles jogavam todo tipo de lixo a céu aberto desde 1992, inclusive lixo hospitalar. Essa área agora está nos estudos para recuperação. Uma coisa é você fechar o lixão, outra é conseguir recuperar a área. Voltando à questão anterior, isso deixa claro que a atuação de um ambientalista afeta diretamente a saúde. Nada foi fácil, nem fazer parte do conselho de saúde. O conselho de saúde exige um trabalho incrível para se fazer bem feito. Mas eu estou lá porque o conselho de saúde ainda é uma das poucas iniciativas em que você consegue ver o resultado da sua ação. Mas desde que estou aqui considero uma das conquistas mais importantes, a partir da nossa participação nas audiências públicas, a criação da condicionante que criou uma comissão para que nós pudéssemos acompanhar o cumprimento das demais condicionantes que são protocoladas nas audiências públicas. Para se ter uma idéia, há condicionantes da época da construção da segunda usina da Samarco que, segundo Bruno, ainda não foram cumpridas. É preciso ter meios para fiscalizar. Não adianta criar uma condicionante se ela não vai ser cumprida.
- Quem faz parte dessa comissão?
- São representantes de entidades de Guarapari e Anchieta. Fui eleita coordenadora da Ceng (Comissão de Entidades Não-Governamentais) e me orgulho muito disso. A Ceng tem o objetivo de acompanhar o cumprimento dessas condicionantes e isso é fundamental. O interessante é que no principio, logo que a Ceng foi formada, em 2005, começamos a nos articular com outras lideranças da região e essa aproximação tem sido muito interessante e produtiva. A Ceng é uma vitória. É a possibilidade de fortalecermos o debate pelo caminho do diálogo, da democracia. Esse grupo está cada vez mais forte e vem se fortalecendo de maneira espontânea e madura. Vai ser muito difícil para alguém quebrar esses laços. É muito legal você pensar que esse trabalho começou lá atrás e agora outras pessoas estão chegando e se agregando. Eu considero esse grupo da Ceng maravilhoso. Nós fomos crescendo juntos.
- A Ceng já está conseguindo alguns avanços nesses dois anos?
- A condicionante 44 de apoio à elaboração de um plano de turismo para região havia sido considerada como cumprida no relatório. Mas nós pudemos provar que isso não havia acontecido de fato. O plano teria que ser feito com a participação da sociedade civil, com os hoteleiros, pousadeiros, donos de bares e restaurantes. Entretanto, a prefeitura de Anchieta fez o plano por conta própria e deu como cumprido. Nós conseguimos reverter e agora a discussão será retomada de forma correta, com o conselho de turismo. Será contratada uma consultoria para estruturar o plano com a participação de todos. A condicionante 43, de melhoria de entorno da Samarco, também está sendo revista. Essa condicionante também havia sido considerada cumprida pela empresa. Quando questionamos a Samarco sobre quais melhorias a empresa havia realizado, eles apresentaram as melhorias feitas com data anterior à condicionante, ou seja, não foi cumprida também. Se não houvesse a Ceng ficaria por isso mesmo.
- Esse pacote de investimentos que está planejado para Anchieta: complexo siderúrgico Vale-Baosteel, um novo porto, ferrovia Litorânea Sul e ampliação da Samarco, deve ser motivo de grande preocupação para os militantes dos movimentos sociais. A previsão é de que a população seja praticamente triplicada e os problemas sociais também. Como os movimentos estão se preparando para enfrentar esse novo desafio? - Eu acho que estamos entrando nessa discussão a partir do momento que estamos tentando inserir a sociedade nas políticas públicas. Nós fomos reduzidos a uma situação de reativos. Ainda não estamos conseguindo fazer um trabalho pró-ativo, como gostaríamos. Não temos acesso às políticas públicas. Você viu o que aconteceu recentemente no Consema (Conselho Estadual de Meio Ambiente). A presidente do Consema, Maria da Glória Abaurre, excluiu as ONGs ambientalistas do Conselho. Por aí dá para perceber que nós estamos sendo bloqueados. O Ministério Publico não nos atendeu, inclusive há uma tentativa de nos tacharem como radicais, quando na realidade os radicais são eles. Nós somos radicais, sim, pois no momento que defendemos uma causa temos que ser radicais, mas isso numa questão de princípios. É preciso ter princípios bem definidos porque senão nada funciona. Agora, quais são as causas que eles defendem? Quais são as motivações deles? Uma coisa é você ser radical pra defender um crescimento sustentável, outra é ser radical para impor um processo onde não há espaço para o desenvolvimento sustentável, para o diálogo.
- Conversando com alguns moradores de Anchieta é possível perceber que muita gente está completamente desinformada sobre o que está para acontecer. As pessoas sabem por alto que algumas empresas virão para cá e poderão gerar empregos para a população. Elas não imaginam os impactos que esses empreendimentos vão causar para a região.
- A dificuldade é que a população não recebe informação e sim opinião. A grande mídia capixaba está dominada. Não resta nenhuma dúvida. Se as pessoas recebessem informação imparcial elas teriam juízo para julgar. Essa bandeira do desenvolvimento econômico é forte porque ela está sendo veiculada de uma forma positiva. A pílula está sendo dourada. Da forma como a coisa está sendo colocada só existe um caminho, não existe discussão, não existe comparativo. A maioria da população acaba buscando informação na televisão, na “Tribuna” ou na “Gazeta”. Mas isso não é informação. Isso na verdade é opinião direcionada sempre de uma forma muito positiva para o governo e para as empresas. Essa bandeira do desenvolvimento econômico acaba se tornando forte pela forma unilateral como essas informações são manipuladas. Essa não é a bandeira da razão, da verdade, da sensatez, da legalidade, da justiça social. Para ser legítima ela teria que reunir esses elementos.
- Como a senhora avalia a posição do governador Paulo Hartung, que claramente vem impondo essa política hegemônica que acaba se refletindo em todos os setores e instituições da sociedade, sufocando os processos sociais legítimos e ameaçando a democracia?
- Na minha opinião, o governador Paulo Hartung quer realizar um projeto pessoal custe o que custar. Ele foi identificado como o instrumento ideal para atender aos interesses das grandes empresas que se instalaram no Estado. E o projeto pessoal está acima de tudo. A pessoa determina seu objetivo lá na frente e não importa o que esteja pelo caminho. Um governante que é patrocinado por megaempresas e que tem uma imensa disponibilidade irrestrita e permanente para se sentar com os dirigentes dessas grandes empresas, mas que não tem essa mesma disponibilidade para se sentar com os representantes da população para escutar os seus problemas, não tem sensibilidade social. Está é uma linha de política onde não cabe a sensibilidade social. Dentro do seu governo não há espaço para nós. O povo só entra no seu governo na hora de votar. O processo é todo construído para que as coisas continuem como estão. O povo não tem informação e vai continuar sem tê-la. Isso impede as pessoas de avaliar verdadeiramente esse governo. É só você olhar os níveis de aprovação do governo que são altíssimos. Agora, se ele tivesse sensibilidade social, os esforços para se criar as condições para que houvesse um desenvolvimento sustentável estariam sendo feitos. O que nós vemos são problemas na saúde, educação e segurança. O abastecimento de água, por exemplo, está cada dia mais sério aqui em Anchieta. No carnaval passado nós ficamos cinco dias sem água. Isso é um absurdo numa região que quer viver do turismo. Você percebe que não há vontade política para resolver esse tipo de problema, essas questões são tratadas com descaso pelo poder público. Agora, as grandes empresas não vão ter esse problema, porque elas vão construir superpoços para suprir suas demandas de água. Só que essa água é nossa. Faz parte das nossas reservas. Água é um bem tão valioso quanto o petróleo. Elas vão usar essa água. E como vai ficar essa questão? Imagine como vai ficar essa situação quando a população for triplicada com a vinda dos novos empreendimentos. Esse é só um exemplo. O problema do abastecimento de água já vem se arrastando por alguns anos, mas não existe empenho, interesse para resolver. Agora, para abrir caminho para trazer Baosteel, liberar ferrovia e outros empreendimentos, tudo isso é feito num passo acelerado. Os Comitês de Bacias Hidrográficas no Estado estão funcionando a passo de lesma. Todas as ações que são fundamentais para evitar a grande catástrofe estão praticamente paradas. Não dá para dizer que Paulo Hartung está preocupado com essas questões. O que ele vende é desenvolvimento econômico e emprego. E o povo não tem outra informação e acaba comprando dessa forma. O povo não percebe que ele precisa é de saúde, escola etc. Por exemplo, essa pessoa que está desempregada hoje vai passar a sonhar em ter um emprego na construção do empreendimento, só que logo depois isso também acaba. O que vai acontecer? Esse cidadão vai ter emprego por um ou dois anos, durante o processo de construção do complexo industrial. Nossa, que ótimo! Ele vai ter um salário por esse período. Mas isso não muda nada. É uma grande ilusão. E depois, quais serão suas perspectivas? Essas perspectivas só serão transformadas com uma melhor infra-estrutura nas áreas de saúde, educação, segurança etc. Infelizmente, as pessoas não enxergam isso. Eles se aproveitam dessa ingenuidade para vender a pílula dourada do emprego. Emprego temporário para alguns milhares de pessoas não é benefício algum. Pelo contrário, para a região é malefício. Eu pergunto: quanto, como e até quando essas pessoas vão ter esses empregos? Eles nem tocam no assunto do desenvolvimento sustentável. Eles falam em desenvolvimento econômico como a grande salvação, mas nós sabemos que esse tipo de desenvolvimento econômico que está sendo praticado no Espírito Santo é sinônimo de miséria, de favelização, de violência, de promiscuidade, de caos. A proposta é destruir o que existe sem colocar nada no lugar. E quem sai ganhando com isso são as grandes empresas. Por que isso acontece no Espírito Santo? Porque eles encontraram no Espírito Santo os atores que eles precisavam, pessoas que estavam dispostas a atender seus interesses. Você lembra que eles (Baosteel-Vale) foram antes para o Maranhão e quebraram a cara. Fica até parecendo que o Paulo Hartung estava lutando para trazer emprego e desenvolvimento para o Estado. Na verdade, foram eles que encontraram o ator ideal para executar o plano deles, que é o enriquecimento das multinacionais. Não tenha dúvida que nós estamos sendo tratados por essas grandes empresas como quintal do mundo. O impacto disso tudo vai ser irreversível se não for brecado. Estamos sendo tratados como piolhos nessa história. Nós somos vistos como retardadores do desenvolvimento. Infelizmente tem muita gente que pensa assim. Mas nós vamos continuar lutando de cabeça erguida porque ainda acreditamos nas pessoas e na possibilidade de um mundo melhor. |
Comentários
Mo, 28.08.2006 15:46
Roberto Luquini, obrigada pela s suas palavras. Só hoje posso responder-lhe pois estive, ma is uma vez, com problema [...]
Fr, 11.08.2006 19:49
É, Ilda, pelo visto a luta con tinua, né? Se houvesse mais ge nte como você nesse nosso Bras il, o país seria outro. [...]
Sa, 15.04.2006 05:06
Je sais que tu es très critiqu e sur les actions écologiques des sociétés, mais je ne parta ge pas tout à fait ton a [...]
Mi, 15.03.2006 19:43
Oi mae, qual e o endereco web do PROGAIA?
Mo, 27.02.2006 20:49
Vielleicht gibt es ja doch noc h ein Hoffnung für die Menschh eit??