Do ponto de vista antropológico e psicológico é até interessante estar vivendo este momento da história. Apesar da maioria das pessoas não se interessarem pelas questões ambientais elas se preocupam com a sua própria segurança e bem-estar.
As frequentes notícias sobre catástrofes naturais estão abalando a aparente tranquilidade dos que tentaram até agora ignorar a realidade do planeta. Dá para sentir que uma sementinha começou a germinar. É a semente do “pânico diante das mudanças climáticas e suas conseqüências”, que certamente se instalará plenamente nas próximas décadas (alguém quer apostar?). Na mesma medida que acompanhamos as notícias alarmantes, podemos observar uma crescente busca religiosa ou mística. A história nos mostra que quanto mais medo e incertezas, maior é a procura por Deus.
Na antiguidade, as desgraças, pestes e catástrofes naturais eram consideradas um castigo divino e acontecimentos do gênero foram importantes berçários e alimento de crenças, religiões e superstições. Como os Seres Humanos têm uma imensa capacidade para estarem bem consigo mesmos e a se considerarem justos e bons, a procura por bodes expiatórios e sua punição sempre foi uma simples conseqüência.
Se Deus estava castigando é porque havia culpados e culpados eram sempre “os outros”. E esses “outros”, eram os hereges ou os que não professavam a mesma fé. Para obter o perdão divino, os culpados deveriam ser punidos. Os horrores da inquisição tiveram seu ápice com o surgimento da peste bubônica que dizimou milhões de pessoas. A caça aos culpados levou facilmente à condenação de milhares de judeus que arderam nas santas fogueiras católicas após indescritíveis torturas.
Imagino as gerações futuras, se chegarem a existir, se debruçando sobre nossa história atual. Talvez nos olhem da mesma forma que olhamos a idade média, a peste bubônica, a inquisição. Hoje sabemos que a peste negra que assolou a Europa em meados do século XIV se originou na total ausência de higiene e saneamento das principais cidades européias, agravado com os impactos causados quando, justamente, o continente se abriu para o mundo, através das relações comerciais.
Incrível coincidência que, com um mínimo de imaginação, pode nos levar a encontrar outros paralelos. Acabara-se o isolamento dos pequenos centros urbanos concebidos para populações acomodadas numa auto-suficiência precária, porém tranqüila. Tudo começou a convergir para os centros urbanos e, nas ruas apinhadas de gente e animais, o esgoto e o lixo eram despejados pela janela. A violência e a crueldade aumentaram. Roupas e corpos não eram lavados, as famílias dormiam geralmente amontoadas no chão de cubículos úmidos, sem ventilação e esfumaçados. O mesmo espaço era partilhado com os animais domésticos e tudo infestado por ratos, pulgas, percevejos, traças, piolhos. Quando alguém adoecia o contágio era inevitável.
A peste negra talvez tenha sido o primeiro grande cataclismo resultante de um mundo em mutação.
Interessante é que foi justamente toda essa desgraça que obrigou o homem a adotar um outro comportamento com o meio ambiente e, desde então, a ignorância e a superstição perderam bastante espaço. Mas, pelo visto, insuficiente para evitar o próximo cataclismo que também será resultado de nossos hábitos e ignorância e, coincidentemente, proporcional à abertura das relações comerciais entre países. Mas existem outras coincidências, embora muitas sejam de natureza psicológica ou espiritual.
No fundo, parece que o ser humano não mudou muito. Continuamos achando que nós somos os bons e justos, continuamos procurando culpados e continuamos esperando um milagre. Como na idade média, o medo e o desespero parecem ser, ainda, o caminho mais curto para Deus. Mas se quisermos aprender alguma coisa com a história, o que fica evidente é que SEMPRE PAGAMOS PELOS NOSSOS ERROS, QUE MILAGRE NÃO EXISTE.
Somos uma perigosa mistura de predadores egoístas, consumidores irresponsáveis e fervorosos adeptos de milagres e bem-aventurança na vida eterna. Nessas condições, é quase impossível salvar o planeta.
Comentários
Mo, 28.08.2006 15:46
Roberto Luquini, obrigada pela s suas palavras. Só hoje posso responder-lhe pois estive, ma is uma vez, com problema [...]
Fr, 11.08.2006 19:49
É, Ilda, pelo visto a luta con tinua, né? Se houvesse mais ge nte como você nesse nosso Bras il, o país seria outro. [...]
Sa, 15.04.2006 05:06
Je sais que tu es très critiqu e sur les actions écologiques des sociétés, mais je ne parta ge pas tout à fait ton a [...]
Mi, 15.03.2006 19:43
Oi mae, qual e o endereco web do PROGAIA?
Mo, 27.02.2006 20:49
Vielleicht gibt es ja doch noc h ein Hoffnung für die Menschh eit??