Sonntag, 17. Februar 2008
Dia 13 passado tivemos a última reunião da CENG. Refrescando a memória para quem esqueceu: a CENG foi a comissão formada para acompanhar o cumprimento das condicionantes para a instalação da 3ª usina da Samarco, (LI). Aliás, a própria CENG nasceu de uma condicionante. Em março a nova usina entra em funcionamento e passam a valer as condicionantes da LO (Licença de Operação). Foram mais de dois anos de trabalho e dela participaram representantes da sociedade civil de Anchieta e Guarapari. Creio que o sentimento predominante nessa última reunião foi o do dever cumprido mas também de grande satisfação. Não era para menos. O início foi marcado pela insegurança dos participantes em claro contraste com a Samarco que, ao invés de apenas viabilizar a constituição da comissão e fornecer a estrutura necessária ao seu funcionamento, como mandava a condicionante, foi bem além disso. Foi ela quem “escolheu” os participantes e redigiu o Regimento Interno, colocado para apreciação e aprovação em uma única reunião. O que seria uma comissão independente de representantes da sociedade civil para fiscalizar a Samarco nascia sob a orientação e direção da própria Samarco! Essas primeiras reuniões mostraram claramente a imensa barreira que existia entre a Samarco e a comunidade que, de uma forma ou de outra, sempre se vira subjugada pelo poder da empresa. Sem dúvida, o fator mais importante nisso era psicológico. Há quinhentos anos carregamos como herança cultural, a submissão aos colonizadores que, ao longo dos anos, se transformou em submissão aos poderosos. Infelizmente, os que transcendem esses bloqueios psicológicos são geralmente aqueles que querem o poder para si, o que é o caso da maioria dos nossos políticos. Assim, o início da CENG não prognosticava uma quebra desse modelo. Mas o tempo mostrou duas coisas: primeiro que, apesar de tudo, está havendo mudanças na sociedade e, segundo, que existe um imenso potencial nos brasileiros para reverter tais situações de submissão desde que a oportunidade se apresente. Nesse caso, a ocasião veio quando o IEMA, atendendo à pressão da sociedade civil, criou a CENG como instrumento que possibilitaria o acompanhamento do cumprimento das condicionantes para a instalação da 3ª usina. Sem dúvida uma vitória que rapidamente poderia ter se transformado em derrota se não tivéssemos tido a força de, aos poucos, anular o domínio psicológico e estrutural da Samarco nas primeiras reuniões. Foram dois anos onde tivemos de tudo: batalhas, enfrentamentos, árduas discussões. Cobrança no pé, recusa para aceitarmos algumas condicionantes que estavam sendo dadas como cumpridas e onde as coisas tiveram que repartir de zero. Nossa capacitação foi a toque de caixa, movida pela própria constatação de que nosso trabalho era ainda mais importante do que tínhamos imaginado. Após alguns meses a CENG se tornou realmente uma comissão independente, assistida pelo Iema. A Samarco se tornou convidada. Foi como colocar um veículo em movimento. Quanto mais rodava, melhor funcionava. Crescemos todos. Nós, os representantes da sociedade, mas também o Iema e a Samarco que, finalmente, parece começar a compreender que é mais fácil trabalhar com a sociedade do que contra ela. Como coordenadora eleita da CENG me sinto gratificada. Pelo que conseguimos, ou melhor, pelo que começamos. Mas ainda falta muito. Termos como Responsabilidade Social, Crescimento sustentável e muitos outros, têm que ser revistos. Têm que sair dos arquivos da teoria intelectual a serviço da propaganda, para ganhar o território da prática, da realidade, do mundo em mutação. E isso só será possível com a participação da sociedade.
Donnerstag, 7. Februar 2008
Pergunta Na sua opinião, qual foi o principal destaque da atuação do Conselho de Entidades Não-Governamentais (CENG) em 2007? Qual foi o papel da Samarco nessa atuação? Houve transparência/integração/comprometimento? Resposta: Considero a CENG um marco tão grande na história do relacionamento Samarco/sociedade que talvez só em alguns anos possamos avaliar sua real importância. Ela é o início de um processo de integração de diferentes interesses e valores onde estamos todos fazendo nossa parte. Apesar da evolução positiva no que diz respeito a esses três ítens, o processo é tão complexo que não poderíamos separar a atuação da Samarco da atuação da sociedade e isso, em si, já é o ponto mais positivo. Pergunta Como vê o andamento do cumprimento das condicionantes pela Samarco? Quais os pontos mais positivos e os mais negativos ou que ainda precisam de maior evolução? Resposta Esta resposta seria a continuação da resposta anterior. O ponto mais positivo é justamente podermos constatar que um diálogo real entre a Samarco e a Sociedade Civil teve início e isso é fundamental para uma interação mais estreita no futuro. Isso não seria possível sem a CENG que propiciou, pela primeira vez, um espaço de discussão e debates das questões que mais afetam o relacionamento entre a empresa e a sociedade. O acompanhamento e a cobrança das condicionantes levantaram novas questões e expandiram a visão dos participantes tanto da sociedade civil quanto do Iema e da Samarco. O nível de comprometimento de todas as partes me surpreendeu e estou convencida de que essa foi a chave do sucesso da CENG. Pergunta Em que medida a atuação da Samarco tem contribuído para uma maior conscientização das comunidades em relação aos conceitos de Desenvolvimento Sustentável? Como a Samarco poderia contribuir mais nessa área? Resposta O ponto positivo é que o trabalho está começando e o negativo é que o próprio conceito de Desenvolvimento Sustentável terá que ser trabalhado se quisermos obter bons e perenes resultados. O desenvolvimento sustentável é o melhor investimento que empresas e poder público podem fazer pois o caos social, o ambiente degradado e a desordem, uma vez instalados, dificilmente encontrarão soluções e seu custo seria imenso. Suas conseqüências futuras poderiam ser tão graves que poderiam até comprometer o funcionamento das próprias empresas. Pergunta: O que espera da Samarco no futuro? Para começar, que seja mantido um espaço de diálogo com a comunidade quando a CENG deixar de funcionar. Em segundo lugar, gostaria que a Samarco se empenhasse junto ao poder público para a criação de um conceito de Crescimento Sustentável e sua implementação. Isso só será realmente possível se apoiado em políticas ambientais fortes e eficazes e amparado por instrumentos apropriados.
Donnerstag, 24. Januar 2008
O meu amigo Bruno Fernandez, da ONG Gama, deu uma entrevista ao Século Diário, protestando contra a inclusão da Samarco na Diretoria do Comité do Benevente. Sobre isso gostaria de fazer algumas considerações: Companheiros, devemos ser racionais. Nosso posicionameento quanto ao uso da água tem que ser radical, isso é uma coisa. Outra coisa é deixar que isso afete nosso raciocínio! A Samarco é a única que tem condições de bancar o Comité do Benevente funcionando! Não se esqueçam que a única diretoria que funcionou bem foi a primeira. Na segunda eleição, as paixões e a falta de visão predominaram. Vamos refrescar a memória: Na primeira eleição tudo havia sido preparado para que o Comité ficasse nas mãos da Samarco e da prefeitura, lembram-se? O Progaia conseguiu a vice-presidência praticamente na marra. Mas sempre defendemos que a Samarco deveria estar com a secretaria pois era a única que podia bancar o seu funcionamento. O nosso papel era: 1. não permitir que ela obtivesse vantagens indevidas com o cargo. 2. Fazer as coisas acontecerem de modo correto. 3. Elaborar o Regimento Interno. Ela cumpriu o papel dela porque cumprimos o nosso! E aí incluo boa parte dos outros membros da diretoria. Esse núcleo nunca faltava às reuniões, ponto importantíssimo! Cobramos, questionamos, discutimos, trabalhamos duro e, apesar disso, conseguimos um bom clima na diretoria. Sobretudo, soubemos cobrar! Dentro do respeito, dentro da legalidade, sem perder de vista o objetivo! A Samarco disponibilizou a Adriana Alves e mais uma secretária, a Veronika, só para cuidarem do comité! Tudo funcionava, as coisas estavam organizadas e até as questões de transporte dos membros eram resolvidas. As reuniões tinham data certa e todos eram informados com antecedência e chegamos mesmo a elaborar um jornalzinho informativo! Infelizmente, quando foi eleita a segunda diretoria as paixões e posicionamentos radicais predominaram. Se, nas nossas reuniões, havíamos sempre podido contar com um pequeno número de participantes, responsáveis e com visão de conjunto, a eleição para a diretoria definitiva, em Allfredo Chavez, já prognosticava o contrário. Grandes grupos movidos por outros interesses, se apresentaram e levaram a melhor. Tentei convencer algumas pessoas da necessidade de se trabalhar com a Samarco e me lembro de ter ouvido coisas como: "a única coisa que interessa é a Samarco ficar fora"! A Samarco ficou fora e o comité parou. Ou alguém pode dizer que houve algum avanço real? Diante disso, preferimos nos afastar. É com imensa tristeza que constato que as coisas não evoluiram e, pelo andar da carruagem, não evoluirão. O Comité não cumprirá seu papel enquanto a grande motivação de alguns membros for atingir a Samarco. Excluir a Samarco é jogar a criança fora, junto com a água do banho! Protestar é facil, criticar é fácil. Eu sei porque essa é a parte mais fácil do meu trabalho. Mas a outra, a difícil, temos que fazer também. Pois o difícil é construir, ser coerente, imparcial, confiável, perseverante e humilde. Muito mais difícil ainda é reconhecer os erros e voltar atrás pois para isso temos que estar prontos a fazer um trabalho pessoal e esse trabalho inclui deixar de lado as motivações pessoais e as armadilhas do ego. Assim, apelo para a razão. Lembro a todos que não podemos perder de vista que o nosso objetivo é a preservação da nossa bacia hidrográfica. As vezes, os valores que temos que agregar estão do lado do adversário e são apenas materiais. Mas se não temos escolha, vamos tentar fazer uma limonada desse limão. Ilda de Freitas
Donnerstag, 3. Januar 2008
Desejo a todos os meus familiares, amigos, clientes da pousada e companheiros de luta, um feliz novo ano. Ser otimista não é fácil para aqueles que encaram a realidade em vez de enfiar a cabeça na areia, mas vamos fazer um esforço. Aliás, nem se trata mais de otimismo, isso é passado. Agora é tentar positivar algumas coisas e trabalhar para potencializar aquilo que ainda existe de bom. É com esse espírito que encaro o ano novo. Voltarei com calma um dia desses. Agora tenho que me concentrar na pousada e nos meus hóspedes. O sol está rachando e a demanda por nossas lindas praias só aumenta. Nossas lindas praias...por quanto tempo ainda? Mas isso fica para depois. Um grande abraço a todos.
Sonntag, 16. Dezember 2007
| ANCHIETA-ES: QUEM AMA CUIDA!! | Por José Rabelo (www.seculodiario.com.br) (“Os homens devem ter corrompido um pouco a natureza, pois não nasceram lobos e acabaram se tornando lobos”. Voltaire)
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| Depois de morar 32 anos na Europa (Alemanha e Bélgica), Ilda de Freitas decidiu voltar ao Brasil. O destino escolhido foi Anchieta, sul do Espírito Santo, mais precisamente Guanabara. Lá construiu uma pousada (Bromélias). À procura de paz e tranqüilidade, a intenção era fazer daquele pedacinho de terra seu aconchego. Ela não imaginava nem de longe, porém, que aquele pacato e bucólico lugarejo poderia lhe reservar tantos desafios àquela altura da vida. Embora na Europa, além de dois filhos, ela tenha deixado para trás uma vida um tanto agitada. Foi militante do Greepeace, trabalhou na União Européia e atuou em outras ONGs (Organizações Não-Governamentais). Lá também completou seus estudos em Lingüística. Entretanto, sua personalidade questionadora e inquieta não combinaria com uma Ilda versão ligth fazendo crochê e admirando as bromélias no jardim da pousada.
O período de paz e sossego durou pouco. Foi durante um evento na Samarco – que ironicamente comemorava o Dia da Árvore – que Ilda soltou o verbo pela primeira vez em público para criticar o discurso dos representantes da transnacional e autoridades de governo que queriam, segundo ela, dourar a pílula. “Disse que aquele discurso que eles defendiam não condizia com a verdade, porque a verdade é evidente: é só passar a mão nos móveis todos os dias para ver o pó de minério. Disse também que achava um absurdo apresentar a Samarco como a salvadora da pátria”. Para surpresa de Ilda, os estudantes das escolas públicas que assistiam à palestra aplaudiram a mineira de BH com entusiasmo. Um dos estudantes, Bruno Fernandes da Silva, se aproximou de Ilda. Meses depois ele estava dirigindo a ONG Gama – parceira da ONG de Ilda, a Progaia (Programa de Ação e Interação Ambiental).
A partir daí Ilda não parou mais. Aos 66 anos, ela dirige a Progaia, coordena o Ceng (Conselho de Entidades Não-Governamentais), é membro do conselho de turismo e de saúde e nas “horas vagas” administra a pousada. Sem contar o blog que mantém na internet – atualizado, diga-se de passagem. Vale a pena conferir (http://bromelias.weblogwriter.com/).
Leia a seguir a entrevista completa de Ilda de Freitas e entenda todo o processo de militância iniciado em Anchieta, os enfrentamentos que a Progaia vem travando com a poderosa transnacional Samarco. As vitórias conquistadas a duras penas e os novos desafios que ela terá pela frente com a instalação da megasiderúrgica Vale-Baosteel.
- Quando a senhora chegou aqui em Anchieta (Guanabara), há cerca de oito anos, a militância ambiental já era um objetivo? Ilda de Freitas: - Eu não pensei nisso no início. Porque meu objetivo nem era esse exatamente. Eu queria o sol de volta. A Bélgica é um país muito frio, chove muito e tudo é muito cinza. Eu queria qualidade de vida. Eu achava que já havia fechado um ciclo de minha vida na Europa e queria abrir um novo ciclo nesse retorno ao Brasil.
- Por que a senhora escolheu Anchieta?
- Eu escolhi Anchieta porque eu precisava de paz e tranqüilidade. Eu percebi que BH não poderia me oferecer essas coisas. Era também a possibilidade de unir o útil ao agradável. Meus filhos vêm todos os anos para cá e gostam de passar um longo período à beira mar. A idéia da pousada foi uma solução encontrada para fazer algum dinheiro e também ter um espaço para receber minha família. Mas não foi para ganhar dinheiro. Se fosse para ganhar dinheiro eu continuava na Europa.
- E como a senhora começou a se envolver nas questões sociais? - Comecei e me interessar pela cidade, sua história, suas dinâmicas. Para mim é muito importante esse envolvimento com o local que eu escolhi para morar. Na Europa sempre foi assim, eu me coloco na função de cidadã, o resto são acessórios. Todo mundo tem que fazer a sua parte para não ser somente um predador. Não tenho sonhos. Vivo um dia de cada vez.
- Qual foi a primeira causa em que a senhora se envolveu em Anchieta?
- Quando cheguei me deparei com o problema do lixo. Não havia coleta da prefeitura e as pessoas tinham como hábito queimar o lixo, muitas vezes sem tomar alguns cuidados para que o fogo não se alastrasse. Por causa disso já arrumei algumas brigas logo de cara. Você vai atrás do poder público e é ignorado e a comunidade também passa a te tratar com ignorância. Isso tudo gera um desgaste muito grande. Depois passei a entender melhor a lógica das coisas na medida em que fui me confrontando com os problemas sociais. Nesse momento é preciso parar e reavaliar os seus valores. Quando chequei aqui passei por esse processo de reavaliação. Eu tinha a referência da Europa ainda muito forte e achava que as coisas tinham fim, conclusão. Aqui aprendi que as coisas não são bem assim.
- A partir daí a senhora começou a se envolver em outras causas?
- Eu devia ter registrado tudo num diário pra entender melhor o que aconteceu comigo. Como me meti em tanta coisa assim. Às vezes fico cansada. É difícil quando você trabalha, trabalha e não vê muito retorno. Porque o meu retorno não é material, a exemplo da lógica dos políticos, das multinacionais. Meu retorno é ver na prática que há cada vez mais gente se envolvendo nessas causas sociais. Isso está acontecendo, mas o processo ainda é muito lento.
- A fundação da Progaia foi uma maneira de criar um canal institucionalizado de luta?
- No meu segundo ano em Anchieta (2001), eu tinha dois amigos que compactuavam das mesmas idéias, ou seja, garantir a preservação de Anchieta. Decidimos então montar a ONG (Progaia) pra proteger essa área. No início, a idéia era transformar uma área aqui de Guanabara em parque ecológico. Infelizmente, esse que foi o projeto inicial da ONG nunca avançou. Não havia interesse nem apoio por parte da população. Muito pior, as pessoas nos olharam como se estivéssemos cometendo uma ingerência.
- Vocês já tinham dimensão dos danos causados pela Samarco à região?
- Nós nem tínhamos contato com Samarco naquela época. Isso aconteceu depois. Mas esses foram os primeiros passos e dificuldades que começamos a enfrentar. A gente percebeu que o fato de ter um CNPJ, uma personalidade jurídica com a criação da ONG poderia facilitar nosso trabalho, como por exemplo no momento de participar de audiências públicas, reuniões e outros fóruns de discussão. Foi aí que começou a fase de conflito com a Samarco, que foi muito intensa.
- Qual foi o primeiro embate com a Samarco?
- O primeiro embate aconteceu numa reunião na própria Samarco, durante um evento de comemoração do Dia da Árvore. Porque aqui tudo é patrocinado pela Samarco. A maior parte da platéia era de estudantes de escolas públicas e autoridades. Havia umas palestras até interessantes. No final, eles abriram para perguntas. Foi quando percebi, e isso tem uns sete anos, que o discurso era todo conduzido para dourar a pílula do poder publico e da Samarco. Foi a primeira vez que eu me manifestei publicamente contra a Samarco.
- A Progaia já existia?
- Nós estávamos montando. Mas retomando. Essa manifestação aconteceu de forma muito espontânea. Eu me considero uma pessoa autêntica e estava num momento de questionamento. Eu queria entender os processos. Eu entendo que um cidadão não deve ser limitado por fronteiras territoriais, inclusive acho que a primeira coisa que devia mudar no mundo era isso, porque fazemos parte de um planeta, não de um circuito fechado. Acho que o fato de as pessoas não compreenderem isso é que gera tantos problemas.
- A senhora quer dizer com isso que as pessoas achavam que a senhora não tinha legitimidade para fazer certos questionamentos porque havia acabado de chegar?
- Para eles era assim, mas para mim não. Existe um contraste imenso entre a minha forma de pensar, a minha abertura cosmopolita e a maneira centralizadora, regional e bairrista com que as pessoas tratam certas questões. E isso acontece não só no Brasil, mas no mundo todo. Há muitas pessoas que não se preocupam com sua cidade, com seu bairro, mas somente com a rua em que moram. Eles só querem melhorias para a rua deles, para o clube, para a escola onde o filho estuda. A dificuldade do ser humano é entender que para se ter melhoria em algo é preciso ter uma visão macro. Não quero ser presunçosa, mas acho que nasci com isso. As pessoas dizem que é porque morei na Europa, mas não tem nada a ver. Acho que sempre tive essa visão, mas anteriormente não conseguia defini-la. Era mais um sentimento do que uma visão.
- E como as pessoas passaram a te ver depois desse primeiro embate com a Samarco?
- Como disse, no final do evento abriram para as perguntas, mas ninguém se manifestava. Percebi que havia muita ingenuidade nas pessoas, uma falta de conhecimento, de visão. Como se nós todos fôssemos pessoas de sorte pelo fato de a Samarco estar ali na região. A Samarco era venerada como uma empresa boa, que se preocupava com todos, um exemplo para o mundo, para o Brasil. Era uma empresa moderna e voltada para as questões sociais. O que eu achei interessante é que quando eu me manifestei, eu falei que estava abismada com aquilo, que estava há pouco tempo em Anchieta e precisei pintar minha pousada no segundo ano por causa do pó de minério. Disse que aquele discurso que eles defendiam não condizia com a verdade, porque a verdade é evidente: é só passar a mão nos móveis todos os dias. Disse também que achava um absurdo apresentar a Samarco como a salvadora da pátria. Nesse momento, o grupo de estudantes que estava lá me aplaudiu. Neste grupo de estudantes, embora fossem todos muito jovens, havia alguns que realmente demonstraram que queriam mudar as coisas. Um desses jovens que conheci nesse encontro foi o Bruno (Fernandes da Silva), que hoje é diretor-presidente da outra ONG ambiental de Anchieta (Gama), que é nossa parceira. - O trabalho da Progaia e da Gama tem sido complementar nesse processo de militância ambiental em Anchieta?
- A entrada dos jovens nesse processo com a Gama está sendo muito proveitosa para todos nós. Na verdade, nesse primeiro momento, tanto eu como o Bruno estávamos num processo de aprendizagem. Nós éramos inocentes em nossas abordagens. Eu vinha de um país onde a lei não era só válida no papel. No princípio, não conseguíamos ver a profundidade do problema. Então, de uma forma ou de outra, tanto a minha abordagem quanto a do Bruno foi cheia de ingenuidade, de inocência, de idealismo puro. Afinal, era uma multinacional poderosa contra alguns idealistas. Esse processo está acontecendo ainda. Acho que ainda me considero ingênua. Estou descobrindo até que ponto o egoísmo, a falta de responsabilidade de grupos pode chegar. Eu costumo dizer que nós estamos aprendendo o alfabeto da cidadania. O que importa é você não se conformar com seus limites.
- A senhora está percebendo que está havendo uma mudança de atitude por parte da sociedade. As pessoas estão mais sensibilizadas aos movimentos sociais?
- Participei de todas as audiências públicas e pude perceber que a participação da sociedade ainda é pequena. A comunidade aparece, num primeiro momento nas reuniões, com interesse de emprego. A mentalidade sempre foi esta. Depois, à medida que eles vêem que não é esse o assunto, esperam o lanche e vão embora. Eu sei que o negócio é complicado. Para mim também foi. Eu não sabia, por exemplo, o que era meio antrópico. Essas questões técnicas me deixavam perdida muitas vezes. E olha que eu tenho algum vocabulário, imagina para as pessoas mais simples da comunidade. Esse discurso teria que ser menos técnico e mais inclusivo, no sentido de fazer com que o povo compreenda as questões que estão sendo debatidas. Eu mesma fui perceber que as condicionantes que são protocoladas nas audiências públicas, a partir das informações e discussões, passam a valer depois de dez dias. Nessa última audiência da saúde, por exemplo, li o estudo de impacto ambiental e percebi que havia pontos que não condiziam com a verdade, que não estavam de acordo com o estudo de impacto ambiental. Telefonei para dezenas de pessoas pedindo que fossem nas próximas audiências. Um exemplo: dizia-se na audiência que a quantidade de leitos do hospital de Anchieta era muito grande e atendia muito bem ao número de habitantes, inclusive afirmavam que estava acima da média nacional. Isso não condiz com a realidade. E não havia ninguém da área de saúde para questionar. Os médicos e profissionais de saúde simplesmente não apareceram. <!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--> - Como os políticos têm se comportado nessas audiências?
- Os vereadores sempre me trataram como inimiga mesmo sem me conhecer direito. Já me enxergam como ameaça, uma inimiga em potencial que é capaz de apontar com o dedo as coisas erradas. Eles no máximo aparecem nas audiências só para assinar o livro de presença e vão embora. Isso quando aparecem. Não há um vereador que possa afirmar que participou plenamente do PDM (Plano Diretor Municipal).
- Por falar em PDM, o prefeito Edval Petrin (PSDB) escolheu os membros do conselho. Isso não tira a legitimidade do conselho? - Os conselhos são fundamentais para a democracia. É o meio de acesso às políticas públicas e à transparência daquilo que está sendo feito. O Conselho de PDM foi criado por decreto, eu recebi o convite para assistir à posse. Pela lei, todas as entidades deveriam ser convidadas para escolher seus representantes. As pessoas que o prefeito nomeou não têm atuação ou representatividade social. São verdadeiras vaquinhas de presépio. As multinacionais têm na sua mão a grande marionete que é o Paulo Hartung, depois têm os pequenininhos. Um Conselho deste nunca vai funcionar em prol da comunidade. Eles nunca vão querer alguém como eu, como o Bruno lá dentro, uma pessoa que tenha independência, compromisso.
- Então os Conselhos não funcionam?
- Dos conselhos estabelecidos, o que tem mais chance de funcionar é o da saúde, porque recebe repasse de dinheiro e isso torna obrigatória a prestação de contas ao Tribunal de Contas. Como as regras são mais rígidas, as coisas funcionam melhor. Mesmo assim tive que entrar com uma ação no Ministério Público para pedir a impugnação da primeira eleição que havia ocorrido de maneira irregular. Eles acabaram anulando essa eleição e fazendo outra. Na segunda, eu consegui me eleger. Eles alegavam que meio ambiente não tinha nada a ver com a saúde.
- A senhora poderia citar algumas realizações já conquistadas pelo Progaia?
- Foi por iniciativa do Progaia que o Ministério Público fechou o grande lixão de Iriri (limite com Piúma) que recebia lixo de cinco municípios aqui da região. Eles jogavam todo tipo de lixo a céu aberto desde 1992, inclusive lixo hospitalar. Essa área agora está nos estudos para recuperação. Uma coisa é você fechar o lixão, outra é conseguir recuperar a área. Voltando à questão anterior, isso deixa claro que a atuação de um ambientalista afeta diretamente a saúde. Nada foi fácil, nem fazer parte do conselho de saúde. O conselho de saúde exige um trabalho incrível para se fazer bem feito. Mas eu estou lá porque o conselho de saúde ainda é uma das poucas iniciativas em que você consegue ver o resultado da sua ação. Mas desde que estou aqui considero uma das conquistas mais importantes, a partir da nossa participação nas audiências públicas, a criação da condicionante que criou uma comissão para que nós pudéssemos acompanhar o cumprimento das demais condicionantes que são protocoladas nas audiências públicas. Para se ter uma idéia, há condicionantes da época da construção da segunda usina da Samarco que, segundo Bruno, ainda não foram cumpridas. É preciso ter meios para fiscalizar. Não adianta criar uma condicionante se ela não vai ser cumprida.
- Quem faz parte dessa comissão?
- São representantes de entidades de Guarapari e Anchieta. Fui eleita coordenadora da Ceng (Comissão de Entidades Não-Governamentais) e me orgulho muito disso. A Ceng tem o objetivo de acompanhar o cumprimento dessas condicionantes e isso é fundamental. O interessante é que no principio, logo que a Ceng foi formada, em 2005, começamos a nos articular com outras lideranças da região e essa aproximação tem sido muito interessante e produtiva. A Ceng é uma vitória. É a possibilidade de fortalecermos o debate pelo caminho do diálogo, da democracia. Esse grupo está cada vez mais forte e vem se fortalecendo de maneira espontânea e madura. Vai ser muito difícil para alguém quebrar esses laços. É muito legal você pensar que esse trabalho começou lá atrás e agora outras pessoas estão chegando e se agregando. Eu considero esse grupo da Ceng maravilhoso. Nós fomos crescendo juntos.
- A Ceng já está conseguindo alguns avanços nesses dois anos?
- A condicionante 44 de apoio à elaboração de um plano de turismo para região havia sido considerada como cumprida no relatório. Mas nós pudemos provar que isso não havia acontecido de fato. O plano teria que ser feito com a participação da sociedade civil, com os hoteleiros, pousadeiros, donos de bares e restaurantes. Entretanto, a prefeitura de Anchieta fez o plano por conta própria e deu como cumprido. Nós conseguimos reverter e agora a discussão será retomada de forma correta, com o conselho de turismo. Será contratada uma consultoria para estruturar o plano com a participação de todos. A condicionante 43, de melhoria de entorno da Samarco, também está sendo revista. Essa condicionante também havia sido considerada cumprida pela empresa. Quando questionamos a Samarco sobre quais melhorias a empresa havia realizado, eles apresentaram as melhorias feitas com data anterior à condicionante, ou seja, não foi cumprida também. Se não houvesse a Ceng ficaria por isso mesmo.
- Esse pacote de investimentos que está planejado para Anchieta: complexo siderúrgico Vale-Baosteel, um novo porto, ferrovia Litorânea Sul e ampliação da Samarco, deve ser motivo de grande preocupação para os militantes dos movimentos sociais. A previsão é de que a população seja praticamente triplicada e os problemas sociais também. Como os movimentos estão se preparando para enfrentar esse novo desafio? - Eu acho que estamos entrando nessa discussão a partir do momento que estamos tentando inserir a sociedade nas políticas públicas. Nós fomos reduzidos a uma situação de reativos. Ainda não estamos conseguindo fazer um trabalho pró-ativo, como gostaríamos. Não temos acesso às políticas públicas. Você viu o que aconteceu recentemente no Consema (Conselho Estadual de Meio Ambiente). A presidente do Consema, Maria da Glória Abaurre, excluiu as ONGs ambientalistas do Conselho. Por aí dá para perceber que nós estamos sendo bloqueados. O Ministério Publico não nos atendeu, inclusive há uma tentativa de nos tacharem como radicais, quando na realidade os radicais são eles. Nós somos radicais, sim, pois no momento que defendemos uma causa temos que ser radicais, mas isso numa questão de princípios. É preciso ter princípios bem definidos porque senão nada funciona. Agora, quais são as causas que eles defendem? Quais são as motivações deles? Uma coisa é você ser radical pra defender um crescimento sustentável, outra é ser radical para impor um processo onde não há espaço para o desenvolvimento sustentável, para o diálogo.
- Conversando com alguns moradores de Anchieta é possível perceber que muita gente está completamente desinformada sobre o que está para acontecer. As pessoas sabem por alto que algumas empresas virão para cá e poderão gerar empregos para a população. Elas não imaginam os impactos que esses empreendimentos vão causar para a região.
- A dificuldade é que a população não recebe informação e sim opinião. A grande mídia capixaba está dominada. Não resta nenhuma dúvida. Se as pessoas recebessem informação imparcial elas teriam juízo para julgar. Essa bandeira do desenvolvimento econômico é forte porque ela está sendo veiculada de uma forma positiva. A pílula está sendo dourada. Da forma como a coisa está sendo colocada só existe um caminho, não existe discussão, não existe comparativo. A maioria da população acaba buscando informação na televisão, na “Tribuna” ou na “Gazeta”. Mas isso não é informação. Isso na verdade é opinião direcionada sempre de uma forma muito positiva para o governo e para as empresas. Essa bandeira do desenvolvimento econômico acaba se tornando forte pela forma unilateral como essas informações são manipuladas. Essa não é a bandeira da razão, da verdade, da sensatez, da legalidade, da justiça social. Para ser legítima ela teria que reunir esses elementos.
- Como a senhora avalia a posição do governador Paulo Hartung, que claramente vem impondo essa política hegemônica que acaba se refletindo em todos os setores e instituições da sociedade, sufocando os processos sociais legítimos e ameaçando a democracia?
- Na minha opinião, o governador Paulo Hartung quer realizar um projeto pessoal custe o que custar. Ele foi identificado como o instrumento ideal para atender aos interesses das grandes empresas que se instalaram no Estado. E o projeto pessoal está acima de tudo. A pessoa determina seu objetivo lá na frente e não importa o que esteja pelo caminho. Um governante que é patrocinado por megaempresas e que tem uma imensa disponibilidade irrestrita e permanente para se sentar com os dirigentes dessas grandes empresas, mas que não tem essa mesma disponibilidade para se sentar com os representantes da população para escutar os seus problemas, não tem sensibilidade social. Está é uma linha de política onde não cabe a sensibilidade social. Dentro do seu governo não há espaço para nós. O povo só entra no seu governo na hora de votar. O processo é todo construído para que as coisas continuem como estão. O povo não tem informação e vai continuar sem tê-la. Isso impede as pessoas de avaliar verdadeiramente esse governo. É só você olhar os níveis de aprovação do governo que são altíssimos. Agora, se ele tivesse sensibilidade social, os esforços para se criar as condições para que houvesse um desenvolvimento sustentável estariam sendo feitos. O que nós vemos são problemas na saúde, educação e segurança. O abastecimento de água, por exemplo, está cada dia mais sério aqui em Anchieta. No carnaval passado nós ficamos cinco dias sem água. Isso é um absurdo numa região que quer viver do turismo. Você percebe que não há vontade política para resolver esse tipo de problema, essas questões são tratadas com descaso pelo poder público. Agora, as grandes empresas não vão ter esse problema, porque elas vão construir superpoços para suprir suas demandas de água. Só que essa água é nossa. Faz parte das nossas reservas. Água é um bem tão valioso quanto o petróleo. Elas vão usar essa água. E como vai ficar essa questão? Imagine como vai ficar essa situação quando a população for triplicada com a vinda dos novos empreendimentos. Esse é só um exemplo. O problema do abastecimento de água já vem se arrastando por alguns anos, mas não existe empenho, interesse para resolver. Agora, para abrir caminho para trazer Baosteel, liberar ferrovia e outros empreendimentos, tudo isso é feito num passo acelerado. Os Comitês de Bacias Hidrográficas no Estado estão funcionando a passo de lesma. Todas as ações que são fundamentais para evitar a grande catástrofe estão praticamente paradas. Não dá para dizer que Paulo Hartung está preocupado com essas questões. O que ele vende é desenvolvimento econômico e emprego. E o povo não tem outra informação e acaba comprando dessa forma. O povo não percebe que ele precisa é de saúde, escola etc. Por exemplo, essa pessoa que está desempregada hoje vai passar a sonhar em ter um emprego na construção do empreendimento, só que logo depois isso também acaba. O que vai acontecer? Esse cidadão vai ter emprego por um ou dois anos, durante o processo de construção do complexo industrial. Nossa, que ótimo! Ele vai ter um salário por esse período. Mas isso não muda nada. É uma grande ilusão. E depois, quais serão suas perspectivas? Essas perspectivas só serão transformadas com uma melhor infra-estrutura nas áreas de saúde, educação, segurança etc. Infelizmente, as pessoas não enxergam isso. Eles se aproveitam dessa ingenuidade para vender a pílula dourada do emprego. Emprego temporário para alguns milhares de pessoas não é benefício algum. Pelo contrário, para a região é malefício. Eu pergunto: quanto, como e até quando essas pessoas vão ter esses empregos? Eles nem tocam no assunto do desenvolvimento sustentável. Eles falam em desenvolvimento econômico como a grande salvação, mas nós sabemos que esse tipo de desenvolvimento econômico que está sendo praticado no Espírito Santo é sinônimo de miséria, de favelização, de violência, de promiscuidade, de caos. A proposta é destruir o que existe sem colocar nada no lugar. E quem sai ganhando com isso são as grandes empresas. Por que isso acontece no Espírito Santo? Porque eles encontraram no Espírito Santo os atores que eles precisavam, pessoas que estavam dispostas a atender seus interesses. Você lembra que eles (Baosteel-Vale) foram antes para o Maranhão e quebraram a cara. Fica até parecendo que o Paulo Hartung estava lutando para trazer emprego e desenvolvimento para o Estado. Na verdade, foram eles que encontraram o ator ideal para executar o plano deles, que é o enriquecimento das multinacionais. Não tenha dúvida que nós estamos sendo tratados por essas grandes empresas como quintal do mundo. O impacto disso tudo vai ser irreversível se não for brecado. Estamos sendo tratados como piolhos nessa história. Nós somos vistos como retardadores do desenvolvimento. Infelizmente tem muita gente que pensa assim. Mas nós vamos continuar lutando de cabeça erguida porque ainda acreditamos nas pessoas e na possibilidade de um mundo melhor. |
Donnerstag, 13. Dezember 2007
As ONGS ambientais acabam de ser excluídas do Consema, Conselho Estadual do Meio Ambiente. A notícia choca mas é plenamente coerente com a linha de Governo de Paulo Hartung. Isso me fez de alguma forma lembrar uma dessas mensagens engraçadinhas da internete que mostrava, ao longo da história, a guerra entre Deus e o Diabo. O foco era a luta do ser humano moderno que não consegue usufruir plenamente das boas coisas que a vida pode oferecer hoje. Do tipo: tanta comida gostosa mas que chega ao mesmo tempo que a exigência por padrões de beleza inalcançáveis para a maioria dos mortais. Ou: a vida humana sendo prolongada ao mesmo tempo em que as pessoas idosas já não gozam do respeito que tinham antigamente e nem podem mais contar com os cuidados dos familiares. Então, todo mundo quer ser jovem e bonito e proliferam as clínicas de belezas, as dietas milagrosas, as cirurgias plásticas. Mas isso não resolve os problemas e aumenta o número de analistas, psiquiatras, etc. E por aí vai. Mas mesmo numa brincadeira assim podemos encontrar um fundo de verdade. As leis são exemplo disso. Mais abrangentes do que nunca e cada vez mais perfeitas. Isso seria Deus. O Diabo seria o poder dos contraventores, sua esperteza, sua falta de escrúpulos e sua capacidade de organização. Mas seria também o poder dos interesses econômicos aliados aos objetivos pessoais de grande parte dos nossos políticos. Um dos melhores exemplos: O Diabo seria o domínio da grande mídia pelo poder econômico e a internete seria Deus. Um tira a liberdade de expressão, o outro devolve. Um, está perdendo terreno pelo fato de estar confinado aos interesses de um grupo e o outro crescendo, justamente por ter liberdade. Os jornais perdem leitores na mesma medida em que são criados blogs, sites e jornais da internete independentes onde o pensamento livre e a informação circulam. São como grandes passeatas virtuais e, quem sabe, daí poderá nascer uma nova ordem social. Sem contar sua incrível mobilidade para ser usada como ferramenta de pesquisa, sem fronteiras territoriais. Então, de certa forma, as coisas continuam equilibradas entre o céu e a terra. Essa ferramenta já está nos servindo e temos que saber utilizá-la cada vez mais. Via net, juntamos idéias e pessoas, criamos fóruns, buscamos soluções. Tenho a certeza de que esse “movimento” que tanto deve ao virtual, será cada vez mais forte na medida em que nos estruturamos melhor e definirmos melhor nossas metas. A exclusão das ONGS ambientais do Consema se insere no mesmo contexto da criação do Conselho de PDM e Desenvolvimento em Anchieta onde “todos” os conselheiros foram escolhidos pelo prefeito. No mesmo contexto em que as portas do MP foram fechadas para as entidades que tentaram recorrer. No mesmo contexto em que nosso recurso à prefeitura não obteve nenhuma resposta. No mesmo contexto em que o prefeito e o governador desmarcaram as reuniões com as entidades. Para mim, o que estão fazendo já é criar barricadas. Quem cria barricadas já está na defesa. É sútil, mas é. Se você não teme o adversário e se julga superior a ele, pode se dar ao luxo de recebê-lo em sua casa e isso pode até ser uma boa estratégia. Se a bandeira do adversário for só uma bandeira para disfarçar interesses pessoais, a coisa é fácil. Você se mostrará sensibilizado aos seus argumentos e não deixará de enaltecer suas qualidades e, num piscar de olhos, ele será seu aliado. Uma tática comum de prefeitos e outros políticos é receber de vez em quando algum "líder" comunitário, com alguma reivindicação especial, do tipo, uma sede para a associação, uma creche, um campo de futebol. Esses líderes saem satisfeitos após uma negociação "onde todo mundo sai ganhando". As vezes o ganho é só um empreguinho público para o líder ou alguém da sua família. É o prato de lentilhas, ou o osso. Mas nós, que não aceitamos um prato de lentilhas nem osso, estamos sendo rechaçados para o mais longe possível. Excluídos. Querem saber? De certa forma isso já é uma vitória. Eles sabem que bandeiras, como máscaras, podem ser trocados. Diz um ditado que a verdade só tem um rosto mas a mentira usa máscaras, muitas máscaras. Dá para ver Deus em um e noutro, o diabo. Eles acabam de reconhecer que temos um rosto e para enfrentar isso terão que encomendar novas máscaras.
Mittwoch, 5. Dezember 2007
A Dra. Marlussi, como podem ver no final da página, me respondeu. E aqui vai minha resposta: Dra. Marlussi, Certamente nenhum de nós tomou conhecimento de tais reuniões. A senhora diz que o convite foi para todos. Todos quem? Recebi sim, um convite para uma palestra (ou coisa assim) e um seminário, que de forma alguma poderiam ser considerados como uma reunião e é impensável que a senhora esteja considerando isso. A senhora sabe tanto quando nós que temos assuntos específicos a tratar, graves, urgentes e não é coisa "para todo mundo". A senhora sabe também que sou eu, Ilda de Freitas e o Bruno Fernandes, que estamos à frente dessas questões. Se existisse convite ele teria que ser feito a nós dois que cuidaríamos de contatar outros participantes. Não sei o que pretende com isso mas não podemos admitir que tente inverter a situação tentando provar que fez a sua parte, que pelo menos tentou cumprir o compromisso que havia assumido conosco com relação às irregularidades que denunciamos. POIS NÃO FEZ, ESSA É A VERDADE. A verdade é que parece existir um abismo entre o que a senhora fala nas suas palestras e a sua ação e também entre o que nos prometeu e o que fez. Pelo que podemos notar, nada. Nossa decepção é imensa e maior ainda nossa revolta. Não apenas estamos sozinhos para enfrentar desmandos, irregularidades e ilegalidades mas ainda temos que nos defender da acusação de não estarmos cooperando. Essa acusação injusta não é o que se espera de quem escolheu a justiça como caminho de realização pessoal e profissional. A verdade é que tivemos um único encontro, há uns dois meses. A maior parte do tempo foi uma demonstração de autoridade onde a senhora expôs, com muita propriedade, o que "nós" havíamos feito de errado: o Manifesto. Esse se tornou "o foco" da maior parte da reunião. Os motivos que nos levaram a isso não mereceu tanta atenção mas nos contentamos com a sua promessa de que se encarregaria de acompanhar o caso e de que providências seriam tomadas. Mas chega. Tenho a impressão de estar enxugando gelo. Quero encerrar dizendo que sou consciente da dureza das minhas palavras mas me recuso a "temer" sua reação. Somos sem dúvida obrigados a respeitar as autoridades e eu nunca me furtaria a isso. Mas acima de tudo, respeito a verdade. E não importa o que aconteça, disso não abro mão. Ilda de Freitas
From: mdaher@mpes.gov.br To: ildabromelias@hotmail.com Subject: Re: Data da reunião. Date: Wed, 5 Dec 2007 13:18:07 -0200
Com o objetivo que seria nossa reunião ai, já foram realizadas duas aqui e não apareceu ninguém do seu grupo. O convite foi para todos. Marlusse
Dienstag, 4. Dezember 2007
Nota: A Dra. Marlussi é a Promotora Estadual para as questões do Meio Ambiente Dra, Marlussi, boa tarde, O tempo vai passando e continuamos aguardando a sua promessa de fazermos uma reunião. Marcou, não veio, justificou, prometeu marcar outra vez... A senhora, que ficou tão brava conosco por termos publicado o Manifesto onde expusemos nossa revolta contra as irregularidades que ocorrem em Anchieta e a inércia do MP (aliás não apenas inércia, mas a omissão diante do que acontece aqui), aparentemente se esqueceu da promessa que nos fez de cuidar do assunto. Enquanto isso: . o Conselho de PDM criado por decreto pelo prefeito de Anchieta, onde todos os conselheiros foram por ele nomeados (amigos, prestadores de serviços, contratados), se reúne normalmente como se estivesse dentro da mais pura legalidade; . o promotor de Anchieta, Dr. Thiago, não se dignou responder o ofício que protocolamos (oito entidades) há mais de dois meses relatando os fatos e solicitando uma audiência; . o recurso que protocolamos na prefeitura em desfavor do Conselho ficou sem resposta; . O prefeito cancelou a reunião que havia marcado conosco e não apareceu na reunião marcada com a CUT na qual também estaríamos presentes. Enquanto isso, a vida segue o seu rumo em Anchieta e em toda a região. Tranquilo como sempre para os que têm poder. Com todos os tradicionais absurdos, desmandos, ilegalidades e abusos. Onde a natureza é vilipendiada e o povo conduzido como gado, pelo cabresto da ignorância. Onde reinam os interesses políticos e econômicos embora o discurso seja sempre progressista, humanista, verde. Onde os impactos negativos precedem o apregoado "desenvolvimento" que, se for apenas econômico, beneficiará apenas as multinacionais e os corruptos e transformará a região numa imensa favela. Onde alguns continuam lutando por mudanças, com as mãos nuas, enquanto outros lutam pela perpetuação da ilegalidade e da injustiça, com todas as armas que lhes são concedidas pelo dinheiro e pela omissão da justiça. Mais uma vez pergunto: O que é legalidade? O que é justiça? E mais uma vez lhe digo: Todas as palavras do Manifesto são verdadeiras, mais verdadeiras do que nunca. Se alguém pode dar lições sobre exercício de cidadania, somos nós, doutora Marlussi. A nossa parte estamos fazendo e continuaremos fazendo. Mas...e o resto? Ilda de Freitas
Dienstag, 27. November 2007
NOTA À IMPRENSA GOVERNO DO ES CANCELA REUNIÃO COM REPRESENTANTES DE ENTIDADES Pouco antes das 16 horas de ontem, dia 26.11.07, o Vice-Governador, Ricardo Ferraço desmarcou a reunião para hoje às 09:00h, com os representantes das entidades civis do ES para tratar da expansão industrial do Estado. Até agora, as entidades civis têm sido total e sistematicamente excluídas do processo da expansão industrial, que afetará a vida de centenas de milhares de pessoas e impactará o meio ambiente de forma irreversível. Os representantes da sociedade civil de Anchieta, a área que será mais impactada, lutam há meses para que os direitos dos cidadãos, que seriam garantidos pela lei, sejam respeitados. Em vão. A criação do Conselho de PDM de Anchieta, onde todos os conselheiros foram escolhidos pelo prefeito, seguida da omissão do MP - que se negou a receber os representantes da sociedade civil - deu início a um amplo movimento com a adesão das entidades mais representativas da sociedade do ES. A reunião agendada com o Governador foi cuidadosamente preparada, com duas reuniões e a elaboração de um documento que lhe seria apresentado. Foram muitas horas de trabalho, além da difícil tarefa de coordenar a participação de tantas entidades. O cancelamento da reunião nos deixa perplexos e o fato disso acontecer algumas horas antes, indica que não se trata apenas de mais uma bofetada na cara dos que lutam para que as leis e os direitos dos cidadãos sejam respeitados. Foi uma tentativa de aniquilamento das forças que começam a se aglutinar em torno de principios, de ideais, de cidadania. Compreendemos que estejam com medo. Ilda de Freitas Presidenta Progaia Bruno Fernandes da Silva Diretor Presidente GAMA
Sonntag, 25. November 2007
Ontem, dia 24.11.07, foi realizada a segunda reunião preparatória para o encontro com o Governador Paulo Hartung dia 27. A primeira aconteceu em Vitória, quinta-feira passada. Estamos trabalhando num documento que será apresentado ao Governo e que deverá sintetizar as preocupações das entidades da sociedade civil do ES face à expansão industrial e, ao mesmo tempo, propor as medidas necessárias para que o chamado "desenvolvimento" possa se tornar também sustentável. Esse "movimento", teve início com o protesto das entidades civis de Anchieta face ao descalabro da criação de um Conselho de PDM, Agenda 21, Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo prefeito de Anchieta, Sr. Edval Petri. Todos os conselheiros foram escolhidos por ele, mesmo aqueles que deveriam representar a sociedade civil. Incluia amigos, prestadores de serviço, contratados da prefeitura. Nossos protestos não foram ouvidos, e nossos pedidos para uma reunião com o prefeito, ignorados. A omissão do MP foi a gota d´água que nos levou a publicar um manifesto cuja repercussão foi o início do movimento. Outros artigos deste blog relatam a trajetória do atual movimento que agora reúne representantes das entidades civis mais representativas do ES. Reproduzo a seguir o documento que foi protocolado pela CUT na prefeitura de Anchieta. Texto referente à CUT (Central Única dos Trabalhadores). Pólo industrial e siderúrgico de Anchieta: algumas reflexões necessárias. A Central Única dos Trabalhadores tem acompanhado com atenção as notícias sobre a instalação de uma siderurgia do grupo chinês Baosteel no município de Anchieta. Nossa atenção se deve a inúmeros aspectos, todos de relevância para os trabalhadores, principalmente ao se levar em consideração os aspectos relativos aos possíveis impactos que uma empreitada de tal magnitude pode representar. Principalmente ao se levar em consideração experiências já vividas em nosso estado quanto à implantação de grandes projetos industriais. A geração de empregos é bandeira incessante de luta da CUT. Porem, a qualidade de vida do trabalhador também é. Dessa forma, qualquer projeto deve levar em consideração todos os aspectos essenciais á sustentabilidade do desenvolvimento pretendido, aí incluídas as preocupações com impactos ambientais, na qualidade de vida, na capacidade de oferta de serviços públicos de qualidade, no planejamento urbano e populacional, etc. Na grande Vitória, os bolsões de miséria que hoje exibem uma face desigual de nosso estado, têm sua historia diretamente ligada á construção de grandes projetos, como CVRD e CST (hoje ArcelorMittal). Após a construção de suas plantas, os trabalhadores ficaram sem emprego, mesmo já tendo trazido para o estado, além de sua mão de obra, suas famílias e todas as demandas que uma explosão populacional não planejada acumulam. O município de Serra, por exemplo, teve sua população aumentada em 387% em 30 anos. A não absorção desta mão de obra a posteriori significa uma brutal violência contra o trabalhador, que torna-se, ao fim e ao cabo, uma violência para toda a região que a circunda. Nesse sentido, a CUT/ES quer chamar os vários atores sociais de nossa sociedade á necessária reflexão acerca da transformação do município de Anchieta em um pólo industrial siderúrgico: - Há estudos confiáveis do impacto ambiental que significará tal empreendimento? Em que grau será a poluição ambiental advinda da siderurgia na região? - A previsão de uma explosão populacional (já que se prevê o surgimento de 21,5 mil empregos) tem sido acompanhada de um planejamento que garanta a oferta de serviços públicos (água, esgoto, saúde, educação, segurança) eficientes? Não custa lembrar que o município de Anchieta conta hoje com uma população de 21 mil habitantes (praticamente o mesmo número dos postos de trabalho previstos). - Há projetos de absorção privilegiada para a mão de obra local como forma de se impedir uma explosão populacional que não seja benéfica para a região? Se há, esses projetos levam em conta a necessidade de qualificação e requalificação da mão de obra local? - No caso de conclusão das obras de construção da siderúrgica, há projetos de geração de empregos para os trabalhadores que perderão seus postos de trabalho?
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Comentários
Mo, 28.08.2006 15:46
Roberto Luquini, obrigada pela s suas palavras. Só hoje posso responder-lhe pois estive, ma is uma vez, com problema [...]
Fr, 11.08.2006 19:49
É, Ilda, pelo visto a luta con tinua, né? Se houvesse mais ge nte como você nesse nosso Bras il, o país seria outro. [...]
Sa, 15.04.2006 05:06
Je sais que tu es très critiqu e sur les actions écologiques des sociétés, mais je ne parta ge pas tout à fait ton a [...]
Mi, 15.03.2006 19:43
Oi mae, qual e o endereco web do PROGAIA?
Mo, 27.02.2006 20:49
Vielleicht gibt es ja doch noc h ein Hoffnung für die Menschh eit??